Mamulengos para a História
Das resistências – insurreições, fugas e quilombagem[2].
“Quando eu morrer cansado de guerra
Morro de bem com a minha terra;
cana, caqui, inhame, abóbora
onde só vento se semeara outrora
amplidão, nação, sertão sem fim
Oh! Manuel, Miguilim vamos embora”
Chico Buarque
A fumaça que sobe vagarosamente das chaminés dos poucos casebres mais estruturados, corta o vento frio que a noite deixou chegar às vivas catas e mundéis dos arredores do arraial de São Francisco Xavier, e assim, anuncia a hora do eito para a maioria dos trabalhadores escravizados naquela chapada. O dia ainda não raiou e a pouca claridade do lusco-fusco penetra pelas rachaduras e trincas no barro ressecado das paredes de sopapo. Pelos trançados do telhado de folhas de palmeira e capim dourado desenham-se fracos feixes dessa luz até encontrar as esteiras vazias dos ocupantes que já se puseram em marcha uns pela morraria acima, outros já mais abaixo da cumeeira da serra, nos estreitos canais que vão serpenteando em nível as reentrâncias e pequenas dobras das colinas que escorrem suaves, alimentando pequenos diques e tanques dentro das datas e catas. Sua força de trabalho garante o desmonte das talhas. A seleção e exclusão das rochas maiores vão deixando os braços trêmulos por necessitarem de maior esforço. Enquanto um grupo de trabalhadores alimenta o dique com cascalho já apropriado para bateia, outro vai lavando essa pilha e a deixa nas proximidades a formarem as grandes porções de lavrados estéreis e rejeitos, de início estruturadas por uma base de contenção feita manualmente com os blocos maiores dispostos um a um em forma de círculo, e depois, à medida que se lava, vai ajeitando o cascalho lavrado nessa espécie de caçapa.
As pausas são feitas não para descanso, mas para o acerto do barranco e a contenção da vazadura inesperada da preciosa água que escorre dos subcanais de adução do sistema hidráulico localizado na crista da serra.
A reza da missa da noite anterior não fora suficiente para acalentar a febre e as dores musculares, decorrentes de pleurizes catarrais muito freqüentes naqueles ares e responsáveis por boa parte dos óbitos observados ali. O temor de ser o próximo a tombar aumenta a friagem que o corpo padece.
Os montes de estéreis vão aumentando de altura e de quantidade, pululando pelas encostas e ao longo dos canais. Nos locais mais íngremes os trabalhadores quase têm de se segurar na vegetação que ainda resta entre as enormes pilhas que vão se sobrepondo às margens das pequenas ravinas e cursos antigos de erosão pluvial aproveitados. Da mesma forma vão construindo as caçapas e lhes preenchendo dia após dia com o cascalho limpo.
O ouro que dali tiram é controlado de cima do barranco por um confiado do proprietário dos trabalhadores e concessionário das datas. Essa posição de cima faz parte das táticas de controle e imposição imagética física e simbólica do poder e da autoridade. Aos sobrolhos dos escravizados restam-lhes talhas, pontas de relho, bocas de arcabuzes e mosquetes e as botas da capatazia. A hierarquia de status dos proprietários lhes garante as melhores porções e os veios mais proveitosos, embora o acesso legalmente ocorra na forma de sorteio, como mandam as instruções régias. Canais devem ser erguidos para levar água aos locais menos assistidos exatamente pelos trabalhadores daqueles que possuem menor contingente de mão-de-obra escravizada.
Ainda há aqueles que precisam fazer funcionar o arraial, abastecer as casas senhoriais com água para beber, fazer-lhes a limpeza habitual, apanhar a caça dos mundéis, deixar a ração diária pronta para o almoço dos outros camaradas. O sol já anda alto. A batida do machado é a acompanhante solitária na missa de corpo presente ao lado da tumba ali mesmo, nas proximidades do arraial e do córrego Casarão, cavada por um companheiro de data na noite anterior após o retorno ao arraial. Cuidar das coisas de Deus é um dom bem remunerado no acordo com o Estado terreno. O padre diz missa aos ouvidos apenas do defunto e do trabalhador escalado para jogar as pás de terra sobre o corpo frio e endurecido e botar o bloco de rocha como lápide a marcar o lugar. As palavras proferidas pelo representante de Deus na Terra são pouco compreendidas pelo instrumento que fala, porque dotado parcamente de um entendimento rude da língua geral e pela estranheza desmedida da profecia em Latim das coisas sagradas. Cifras devidamente assinaladas no livro de entradas do fundo eclesiástico garantem o repasse por parte do proprietário da alma ou do habitual ajuste com a Coroa.
Da janela de sua casa em alvenaria de pedra o administrador pode observar o andamento dos trabalhos e também avaliar os gastos para a canalização discutida com os proprietários dias antes.
O número de casas mostra a opulência do arraial e indica a quantidade justificada de ouro que escorre pelos caminhos calçados no lombo de mulas e de trabalhadores escravizados rumo a Corte. Outras estruturas garantem a organização espacial do poder. Fruto do trabalho dos trabalhadores subalternizados para efetivo controle desses mesmos trabalhadores.
Outra medida do trabalho são os sons das ferramentas, das conversas, do sino. Eles vão se somando num durativo que preenche de ressoadas toda cercania desde o topo até as partes mais baixas da serra. Vêm das represas feitas nos pequenos e ralos cursos d’água que afluem para o Casarão, engrossando-lhe suas águas cada vez mais lamacentas até quando despencam nas sucessivas cachoeiras na borda da chapada. Ali os trabalhadores fazem os aterros de rocha, cascalho lavrado e terra argilosa a fim de combater a perda desnecessária da tão valiosa água. O estalido do machado sobre a madeira seca desenha o fractal dos sons aparentemente sem padrão identificado e nos seus intervalos deixa chegar as batidas de martelo e os golpes de picaretes e pás-goiva entre as fissuras das rochas. O chuá-chuá da água que entra e sai das bateias e o deslizar do cascalho para sua borda nem aparece ao longe distinguível, mas está ali mostrando que há uma força transformadora que o provoca.
E assim os trabalhadores escravizados vão modificando a paisagem e deixando suas marcas tanto em si mesmos como no ambiente, conformando a realidade numa reprodução desequilibrada das forças que só pendem para um dos lados diante dos resultados de sua ação. Ele próprio é a medida da ação e transformação que executa. Ele próprio é também parte da paisagem que molda e que lhe molda reciprocamente. Os controladores de sua liberdade e de suas passadas compõem necessariamente esse mosaico.
Haverá mais de 270 anos, a chapada se erguera agigantando-se no horizonte poente, à vista dos caminhantes oriundos das minas do Cuiabá. Enchia a paisagem à medida que dela se aproximavam. Interpunha-se à formação monótona da planície e multiplicava-se em sucessivos braços menores até que se avistavam os morros mais altos e contínuos dessa serraria. De cima, escorriam das contínuas fraldas entre abertas e íngremes até que se emendavam ao sopé suavemente, pequenos cursos d’água que se iam sumindo no verde escuro da mata alta. Esta impedia um alcance da vista para mais longe e forçava parte da comitiva a transpô-la morro acima até que se avistasse sua origem. A outra parte dos camaradas seguia o curso dos riachos e córregos rumo à nascente, socavando-os, à procura de boas pintas de ouro. Em um dos topos planos dessa chapada se fundaria o dito arraial de São Francisco Xavier.
O palco dessa investida de Bandeiras em busca de minérios e de mão-de-obra escravizável tem lugar na extensa Chapada dos Parecis, que se decompõe formando a depressão do Guaporé, seu principal curso d’água que, em épocas de cheia, alimenta as planícies e pantanais do alto e médio Guaporé. Sua vegetação é classificada atualmente como Floresta Estacional Semidecidual e Cerrado. Trata-se de uma transição entre parte da Floresta Amazônica e tipos variados de Cerrado, apresentando minimamente três padrões deste último, sendo o de Campo Limpo, Campo Sujo em altitudes mais elevadas, como o topo das chapadas e, finalmente, o Campo Cerrado, este próprio das porções de transição.
Os espaços dos embates entre trabalhadores subalternizados – sob o jugo da instituição escravizadora de suas liberdades e força de trabalho – e opressores ligados à administração colonial portuguesa e por seus próprios bolsos outros homens de “grossa aventura”, acham-se entre as coordenadas UTM 21K 181971/8216337 – 20 L 783302/8444095 – 21 L 354734/8420711 – 21 K 359144/8207403, com altitudes médias de 300 metros para partes baixas e máximas de 800 metros para os topos das chapadas; sendo: a oeste, desde o Plateau Huanchaca ou Serra de Ricardo Franco, como é conhecida nos dias atuais na Bolívia e no Brasil, respectivamente, até as cabeceiras dos rios Galera, Sararé, Pindaituba e seus tributários a nordeste. Ao sul pelas nascentes do Aguapeí e a Serra de Santa Bárbara, e à época, depois desses limites vinha a Província de Chiquitos, naturalmente. A leste divisavam as proximidades das cabeceiras do Sepotuba e do Paraguai e paralelamente se estendendo abaixo pelo alto curso deste rio até a altura da foz do Jauru, seguindo para oeste a encontrar novamente Huanchaca.
Seguramente a região compreendida como Minas do Mato Grosso era menor no que diz respeito às jazidas minerais, estando estas majoritariamente sobre a Chapada de São Francisco Xavier e nas suas imediatas encostas e fraldas a formar as planícies circundantes; e ao
sul desse prolongamento rompido, entornos de outro maciço soerguido por nome de Serra de Santa Bárbara, em que também se fizeram descobertos de boa conta.
A porção delineada pelas coordenadas acima se apresenta em maior limite a ilustrar as áreas de abrangência para outros negócios que se relacionavam com a região aurífera do Guaporé. Acabam por se incluir nessa região outros estabelecimentos como Casalvasco e Registro e rotas por terra e água que a ligavam a Cuiabá, Vila Maria, Albuquerque e Forte Príncipe. Atualmente, a área compreende os municípios de Vila Bela da Santíssima Trindade, Pontes e Lacerda, Nova Lacerda, Conquista d’Oeste e parte da faixa limítrofe boliviana.
A abordagem inicialmente literária e em certo sentido irônica pelo recurso lingüístico empregado, contradita um ambiente violento e de exploração humana, descrevendo-o de forma romântica, em que prioriza a imagem do trabalho no ambiente de mineração e o recria de maneira subjetiva, mas ancorada nos vestígios concretos do resultado do trabalho, numa idéia do que possivelmente tenha sido parte do cotidiano daqueles espaços.
Ao que tudo indica, nessa região predominaram basicamente os mesmos tipos de transformações do ambiente observados para o tipo de jazida mineral. Construção de canais, diques, tanques, regos, cacimbas, arrimos etc, faz parte do tipo de ocorrência do ouro, tanto aluvional como de veio intercalado em afloramento rochoso.
O trabalho no local de mineração ilustrado e trazido aqui não carrega o real, nem sequer parte dele, por se tratar de uma representação ex post e por isso mesmo, subjetiva. Trata-se de uma composição de imagens atuais a dar uma noção do que era um ambiente de trabalho em mineração no século 18 em Mato Grosso. Essa recomposição do passado obrigatoriamente está sujeita, no mínimo, aos desvios de interpretação sugeridos de início pelo estado atual da paisagem, pela ausência de vestígios totais das transformações e dos agentes envolvidos no processo histórico e finalmente, mas não só, pela carga ideológica e os compromissos do investigador.
A característica principal do trabalho é a mesma verificada para o resto da Colônia desde os primeiros planejamentos em Salvador de se fazer nessas terras uma posse de fato dos domínios lusitanos de ultramar.
Largamente empregada, a escravização havia sido experimentada com os braços nativos em abundância no litoral e de lá se estendeu para dentro do continente à medida que ia se tornando escassa. A necessidade foi suprimida pela introdução da força de trabalho forçado importada como mercadoria de nações do continente africano.
Para o desengano e recompensa dos que para cá vieram, enriquecer-se era obrigação. Ao lucro perseguido por eles não havia obstáculos, nem mesmo religiosos. Ao contrário, além da administração usar abertamente a escravização como força em seus projetos urbanísticos e de suporte militar estrutural, dessa maneira institucionalizando-a, o acordo entre a Coroa e a Igreja Católica garantia que esta se obrigava a conduzir uma catequização progressiva de maneira a arregimentar os ditos seres já considerados sem alma, portanto passível de trazerem-nos como ferramentas.
Os quase quatrocentos anos de escravidão imposta no Brasil e a forma como foi implantada evidenciam particularidades só aqui observadas, pois enquanto nos demais países escravistas da América se observa, por um lado, uma escravidão baseada também na mão-de-obra negra e indígena, por outro, a forma foi de não ocupação de todo território, ficando sujeita à áreas determinadas e em número reduzido se comparada à escravização brasileira.
No caso específico da escravidão à portuguesa aqui no Brasil, a tática foi um crescente emprego da força de trabalho escravizada, primeiramente indígena e, em período adiantado, uma mescla desta com a mão-de-obra trazida da África, e mais adiante predominantemente esta última, de forma a preencher todos os centros produtivos da Colônia com grande número de africanos e de suas gerações após sua chegada nessas terras, caracterizando a reedição da escravidão, porém revisada e melhorada para fins exclusivamente econômicos ligados à Metrópole, construindo assim um tipo de escravismo moderno.[7]
A adoção desse tipo de força de trabalho aumenta a possibilidade de acumulação mais rápida, porém na outra ponta acrescenta novos elementos nas disputas dos espaços de poder e de sua negação. E essa disputa dava lugar a diferentes formas de apropriação dessa força como também de resistência a elas.
O desenrolar dessa trama vinha carregado de embates físicos e ideológicos. De um lado os proprietários com a força da Lei e das armas, aplicando-lhes castigos e punições, acrescentando aí também as estratégias de caráter mais sutil, como as promoções, promessas de liberdade, etc, e do outro lado, dentre as táticas de resistência à apropriação da força de trabalho e da liberdade, os trabalhadores escravizados recorriam ao corpo mole, à destruição dos maquinários e ferramentas, sabotagem da produção, ao suicídio, às rebeliões, às fugas, formando ou não quilombos.
Dessas inúmeras formas de resistência à escravização e à própria condição de escravo experimentadas por aqueles sujeitos feitos cativos, desde a compra de suas liberdades, os furtos, também tidos como resistência ao sistema capitalista de base escravista, as insurreições contra os senhores, feitores e capitães-do-mato, passando pelas fugas ao aprimoramento da resistência como a quilombagem, foi esta última que mais saiu custosa às elites.
As enormes distâncias e os mistérios dos bravios lugares remotos e desconhecidos foram usados como argumentos ou como saída para ambos os lados; tanto da parte dos escravizados quanto do lado dos seus opressores. A "amplidão", o "sertão sem fim" vem apresentado de forma copiosa no relato de um mineiro que, a bordo da monção de 1720, aportou no São Gonçalo Velho cinco meses depois de sua saída do porto de Araritaguaba. Após ter passado quase dois anos minerando nas minas do Cuiabá, pôs-se rio abaixo na monção de 1722 rumo a Tietê. De Itu escreveu ao pai nas Minas Gerais contando sobre suas experiências, agruras e desassossegos, o ouro, o trabalho, os trabalhadores, a “indiada braba”, enfim, a dureza do lugar e a falta que passou das coisas, terminando sua carta dizendo que “[...] pacei de nov[em]bro de vinte the mayo de vintedous no arayal de sam gonssalo vº. [e] froq. [Forquilha] e nam quero saber mais de certam [por] que o sofrmto. e muito”. É provável que os negros e nativos escravizados tivessem uma percepção aproximada acerca dos espaços e das relações sociais no século 18. Dessa maneira, a fuga se apresentava como uma boa saída em busca da autonomia sobre sua força de trabalho e sua liberdade; sofrendo essa apropriação e todos os maus tratos que vigoravam na Capitania, formas de resistência passaram a ser gestadas nos diferentes espaços de trabalho, no interior das senzalas, nas roças, nas construções públicas, nos engenhos, nas fazendas etc.
A elite escravista era consciente sobre a necessidade e o uso da força de trabalho escravizado e tal preocupação se mostra clara em passagens de documentos do século 18 em que dizia que "[...] para facilitar o dito commercio he circunstancia essencial a introducção de Negros, pois, como V. Exa sabe muito bem os brancos sem elles em toda a parte da America, e principalmente em Minas, que se pode dizer que são inuteis...".[10] Por ser o trabalho escravizado força essencial ao lucro dos proprietários, as fugas representavam um desgaste bastante sentido não só na produção, como também frente aos demais trabalhadores cativos e aos negócios de compra e preços de outros escravizados para substituição dos fugitivos. E se parte da produção que já apresentava quedas, mínimas que fossem, por conta de algumas táticas de resistência, outra parte, com novas fugas, poderia vir a ser comprometida com apropriações, depredações, resgates de outros cativos etc. No caso das perdas da administração, elas estão mais ligadas à exploração clandestina de minérios e comércio de contrabando, à baixa no efetivo de guerra, de vigilância e de construções públicas.
Excerto de "Os Mamulengos para a História - Resistências quilombolas do século 18 na Capitania de Mato Grosso - Região de Vila Bela da Santíssima Trindade", memorial de qualificação de mestrado em Arqueologia – Museu de Aqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE/USP. (nov. 2007)
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